Conexão, confiança e valor: o novo eixo da sustentabilidade no jornalismo local 

A sustentabilidade do jornalismo local não nasce necessariamente do corte de custos, mas da criação consistente de valor, a partir da conexão com a comunidade, que não é apenas um ’diferencial’, mas uma vantagem estrutural de crescimento que impulsiona diretamente a confiança, o engajamento e a receita diversificada. Essa é uma das principais conclusões do relatório The Local News Playbook: Creating Value for a Sustainable Future (íntegra aqui), produzido pela FT Strategies em parceria com a Knight Foundation e lançado no início deste mês.

A pesquisa parte de um cenário conhecido de desafios e pressão econômica sobre os veículos locais, que têm reduzido cobertura e presença em diversas regiões, como evidenciam os levantamentos sobre os Desertos de Notícias (no Brasil, verificado principalmente pelo Atlas da Notícia, liderado pelo Projor – Instituto Para o Desenvolvimento do Jornalismo). O estudo, porém, inverte o ponto de partida da análise. Em vez de perguntar apenas como conter perdas (que muitas vezes é necessário), investiga como fortalecer o ciclo que sustenta o jornalismo local. A conclusão é que, antes da monetização e da escala, vêm relevância e confiança. Quando bem desenvolvida, essa base é capaz de gerar viabilidade econômica de longo prazo, diz o relatório.

O diagnóstico surge em um ambiente conhecido. Redações mais enxutas, transição tecnológica imposta em ritmo acelerado, pressão permanente por produtividade quase que imediata (atendendo aos novos hábitos digitais), mas confiável e em acordo com a ética e as práticas jornalísticas, e avanço das plataformas digitais sobre a receita publicitária.

Antes da monetização, relevância

O estudo trata o jornalismo local como um sistema interdependente. Veículos, comunidades, anunciantes, fundações, governos, universidades e plataformas não operam de forma estanque. O valor circula entre esses atores. Quando os fluxos se enfraquecem, o sistema perde tração, e a democracia se fragiliza, uma vez que não há quem escrutine quem detém poder e cargos públicos.

A contribuição do relatório é organizar a dinâmica do ’Ciclo de Valor do Jornalismo Local’: relevância gera engajamento; engajamento gera receita; receita amplia capacidade; capacidade sustenta mais relevância.

O ponto-chave é avaliar e dedicar tempo e trabalho para iniciativas anteriores à monetização. O recurso escasso não é apenas capital financeiro, de acordo com o estudo, mas tempo de audiência e confiança da comunidade. Se o jornalismo local não conquista esses dois ativos, nenhum modelo comercial se sustenta por muito tempo.

Sustentabilidade vem de escolhas estratégicas

A pesquisa analisou experiências em diferentes países, mercados e estruturas de propriedade. Não encontrou um formato único vencedor, mas fundamentos comuns.

O primeiro, é a profunda conexão com a comunidade. Não como slogan, mas como prática estruturada de escuta, presença física, diversidade na redação e cobertura cívica alinhada às necessidades reais do território. A conexão deixa de ser um diferencial simbólico e passa a ser vantagem competitiva.

O segundo, é a construção de relacionamentos diretos. Organizações resilientes reduzem a dependência de algoritmos e investem em canais próprios: newsletters, grupos de mensagem, eventos, membership. A lógica deixa de ser alcance massivo e passa a ser profundidade de vínculo.

O terceiro, é equilíbrio de receita. Assinaturas, doações, publicidade local segmentada, serviços e filantropia aparecem combinados. O estudo reforça um ponto importante: receita do leitor não é apenas fonte financeira. É indicador de valor percebido. Se a comunidade não apoia, há desalinhamento estratégico.

O quarto fundamento é o alinhamento entre missão editorial e decisões comerciais. Nos casos analisados, há clareza sobre propósito e disciplina na alocação de recursos. Sustentabilidade não surge por acaso. É resultado de escolha estratégica consistente.

O quinto, é inovação inteligente. Dados, automação e inteligência artificial são usados para ampliar eficiência e personalização, sem comprometer critérios editoriais. Tecnologia aparece como instrumento de fortalecimento da capacidade jornalística, não como atalho.

Utilidade local como diferencial

O relatório afirma que o jornalismo local não deve competir em volume com grandes plataformas ou portais nacionais. Seu diferencial está na utilidade local única.

Cobertura sobre orçamento municipal, decisões da Câmara, políticas públicas locais, impacto econômico regional, serviços públicos e fatos do cotidiano das pessoas. Esse tipo de conteúdo tem valor direto na vida da comunidade. Quando a redação assume esse papel com clareza, reforça sua legitimidade e fortalece o ciclo de valor.

Bem público e infraestrutura democrática

Outro ponto relevante é que a sustentabilidade não depende apenas das redações. O relatório oferece orientações práticas para financiadores e formuladores de políticas.

Financiamento de longo prazo, investimento em liderança, serviços compartilhados, capacitação técnica e mecanismos de troca mais justa de valor entre plataformas e produtores de conteúdo são apontados como prioridades.

Ao tratar o jornalismo local como bem público, o estudo transfere o debate da lógica puramente mercadológica para uma perspectiva de infraestrutura democrática. A falta dessa perspectiva, como revelam as principais pesquisas sobre os Desertos de Notícias, resulta em erosão social e recuo no desenvolvimento.

O relatório trata a sustentabilidade como estratégia, não apenas finanças. Não há modelo único, mas fundamentos que incentivam a reconstrução de valor entre redação e comunidade.

20 pontos centrais do relatório

  1. Jornalismo local é um ecossistema interdependente que envolve veículos, comunidade, anunciantes, fundações, governos, universidades e plataformas.
  2. Sustentabilidade resulta de um ciclo de valor: relevância gera atenção, que gera receita, que amplia capacidade e reforça a relevância.
  3. O ativo mais estratégico não é tecnologia nem capital, mas tempo e confiança da comunidade.
  4. Conexão profunda com o território aumenta confiança, engajamento e receita.
  5. Redações que refletem a diversidade local produzem cobertura mais precisa e representativa.
  6. Escuta ativa qualifica a pauta e fortalece lealdade do público.
  7. O diferencial competitivo é utilidade local e cobertura cívica exclusiva, não escala nacional.
  8. Jornalismo orientado a soluções tende a elevar confiança e recorrência de audiência.
  9. Relação direta com o público é condição de sustentabilidade; dependência de algoritmo fragiliza o modelo.
  10. Canais próprios, como newsletters e aplicativos, são decisivos para retenção e monetização.
  11. Presença física e participação na vida comunitária ampliam a legitimidade.
  12. Modelos resilientes combinam, em geral, três ou quatro fontes relevantes de receita.
  13. Receitas devem ser diversificadas, e as que vêm do leitor são o sinal mais consistente de valor editorial percebido.
  14. Publicidade local permanece viável quando baseada em audiência qualificada e engajada.
  15. Filantropia deve impulsionar inovação e crescimento, não substituir receita recorrente.
  16. Clareza estratégica, disciplina operacional e alinhamento de missão distinguem organizações sólidas.
  17. Dados e IA ampliam eficiência e personalização quando integrados a governança editorial clara.
  18. Não há modelo único sustentável; diferentes estruturas podem prosperar.
  19. Políticas públicas devem reconhecer o jornalismo local como bem público e estruturar incentivos adequados.
  20. A resiliência do setor depende de fortalecer fluxos de valor entre todos os atores do ecossistema.

*Este texto foi escrito e editado por jornalista, com uso de ferramentas de IA.